Frase – Tenha grandes planos para o futuro

Bom dia com poesia! Não há um jeito certo de começar. Apenas comece a colocar seus planos em prática e ajuste-os com o tempo.

Tenha grandes planos para o futuro

Roteiro Episódio Especulativo – Série Friends

Episódio Confusões em Série. Por Alecio Neto.

INT. EMPRESA DE CHANDLER/COPA – DIA
CHANDLER chega na copa para pegar um café. Duas COLEGAS e um COLEGA de trabalho conversam animadamente. Chandler tenta se enturmar, mas é ignorado.

CHANDLER
Vocês estão falando do jogo dos Yankess? Foi uma droga!

Chandler pega um café e ainda insiste ser engraçado.

CHANDLER
Não sei quem está pior? Os Yankees ou este café?

Chandler se vira para seus colegas que estão de cara feia.

CHANDLER
A minha piada não foi tão ruim para vocês ficarem com essa cara…

Chandler respira fundo e sente o mau cheiro. Os colegas saem de perto dele. Chandler tenta se defender, mas ninguém dá atenção.

CHANDLER
Nem as minhas piadas fedem tanto.
Esperem! Eu não fiz o que vocês
estão pensando!

Chandler nota que seu colega de trabalho foi o responsável por tudo aquilo. Antes que Chandler tire satisfações com ele, seu CHEFE aparece.

CHEFE
Meus Deus! Você comeu um urubu no café da manhã!?

CHANDLER
Foi o…

CHEFE
Vamos para a minha sala conversar sobre o seu projeto que ninguém sabe o que é!

Chandler acompanha seu Chefe, enquanto seu Colega de trabalho saboreia o sucesso da sua brincadeira diabólica.

EXT. RUA/BANCA DE JORNAL – DIA

ROSS anda tranquilamente quando se depara com uma bela mulher na banca de jornal. A MULHER flerta com Ross que aproveita a oportunidade para paquera-la.

ROSS
Oi, meu nome é…

Ross é obrigado a se afastar porque o cachorro da mulher tenta ataca-lo. Ross ainda insiste na paquera.

ROSS
Que belo cachorro! Você…

O cachorro late tanto que não deixa os dois conversarem, até que a mulher dá um jeito na situação.

MULHER
Fred, quieto!

A mulher pega o cachorro que rosna para Ross, mantendo-o a uma distância da sua dona.

ROSS
Acho fantástico o instinto de proteção dos cachorros.

MULHER
Você gosta de animais?…

ROSS
Eu sou um amante da vida selvagem.

MULHER
Hum…você é veterinário?

ROSS
Vamos dizer que eu cuido dos ossos deles.

Ross acha que perdeu a sua paquera depois da sua resposta.

MULHER
Deve ser fantástico ser um ortopedista. Que tal você vir mais tarde examinar o Fred?

ROSS
Não perderia essa oportunidade nem que me mordam…

MULHER
Eu moro naquele prédio. Meu apartamento é o 804. Te espero às 8h? Meu nome é Donna.

Ross tenta se despedir, mas o cachorro não deixa.
INT. APARTAMENTO DE JOEY/RACHEL – DIA
JOEY sai do seu quarto com cara de quem acabou de acordar. Logo em seguida, sai uma bela MULHER. Os dois passam por RACHEL, com roupa de academia, que está na cozinha bebendo um suco. Joey se despede da mulher, que quer mais uma noite com ele.

MULHER
Vou te ver essa noite?

JOEY
Com certeza! Eu te ligo mais tarde, ok?

Joey apenas dá um selinho de despedida e bate a porta quase na cara da sua última conquista. Ele passa por Rachel todo garanhão. A sua amiga não perde a oportunidade para dar uma lição de moral.

RACHEL
Se continuar assim, a próxima que você vai pegar é uma DST.

JOEY
Faz tempo que não pego uma estrangeira.

RACHEL
Eu falei doença sexualmente transmissível!

JOEY
Sou imune a isso!

RACHEL
Isso eu quero ver!

JOEY
Melhor você parar de esquentar a cabeça se preocupando comigo. Tenho o corpo fechado.

Rachel se despede de Joey de forma insinuante.

RACHEL
Você tem razão! Vou manter a minha forma que ganho mais.

Joey volta para seu quarto e Rachel sai do apartamento.

INT. APARTAMENTO DE CHANDLER/MÔNICA – NOITE

CHANDLER chega do trabalho estressado. MÔNICA está vendo televisão e se diverte com uma cena de Professor Aloprado 2, onde a família está almoçando e o garoto solta um pum.

MÔNICA
Essa cena é demais!

Chandler senta ao lado de Mônica, pega o controle e muda de canal. Eles veem um comercial de remédio para flatulência e um quadro de humor, onde um grupo coloca a mão embaixo do suvaco e faz o som de um pum. Chandler, irritado, desliga a televisão.

MÔNICA
O que está acontecendo com você?

CHANDLER
Fui acusado injustamente no trabalho por soltar um pum.

Mônica não consegue se controlar e cai na gargalhada.

CHANDLER
Queria ver se fosse com você!

MÔNICA
Já aconteceu comigo uma vez, num jantar importante.

CHANDLER
O que você fez?

MÔNICA
Eu pedi desculpas.

CHANDLER
Isso eu não faço de jeito nenhum! Quero justiça!

MÔNICA
Eu acho que você deve pedir desculpas. Seus colegas vão te tratar melhor.

CHANDLER
Você está louca? Estou sendo acusado de um crime que não cometi!

MÔNICA
Acho que está exagerando. Amanhã ninguém vai lembrar o que aconteceu.

INT. EMPRESA DE CHANDLER/ELEVADOR – DIA
CHANDLER pega o elevador para ir ao trabalho. Ele entra é empurrado para o fundo. Quando Chandler consegue se ajeitar, ele vê que o COLEGA que o incriminou também está no elevador. O clima fica tenso.

Chandler tenta ser simpático com uma SENHORA que está do seu lado, que o olha de cara feia. Um pouco antes do elevador chegar no andar, nós ouvimos um som de pum e o pânico toma conta do ambiente.

Quando as portas do elevador abrem, as pessoas saem desesperadas. Chandler é expulso do elevador e seu colega de trabalho se vangloria em silêncio.

CHANDLER
Isto não vai ficar assim!

Antes que Chandler tome satisfações com seu colega de trabalho, seu chefe aparece.

CHEFE
Santo Deus, Chandler! O que você fez dessa vez!?

CHANDLER
Eu não…

CHEFE
Vamos! Preciso que você corrija um relatório para mim!

Chandler é levado pelo chefe como se fosse um criminoso pego em flagrante por um policial.

INT. CAFÉ CENTRAL PERK – DIA

ROSS encontra PHOEBE, que está feliz da vida com a sua nova empreitada de fabricar biscoito para cachorro. Ela está arrumando uma pilha de pacote sobre à mesa.

ROSS
Oi…

PHOEBE
Quer experimentar a minha última
novidade?

Phoebe entrega um biscoito no formato de gato para Ross. Ele
vai experimentar até ouvir Phoebe.

PHOEBE
Estou fazendo biscoitos para
cachorro, com a receita secreta da
minha tia!

Ross larga o biscoito na hora.

PHOEBE
Que bicho te mordeu hoje?

ROSS
Um cachorro quase estragou meu encontro hoje!

PHOEBE
Macacos me mordam! Você vai ser meu primeiro cliente. Esse cachorro vai comer na sua mão.

ROSS
Acho que biscoitos não vão acalmar a fera! Eu já estou pensando num plano para cuidar daquele demônio.

PHOEBE
Você não precisa de um plano. É só dar um desses e vai ser tiro e queda.

ROSS
As coisas não são tão simples como você imagina. Tenho que ir me preparar para o meu encontro.

PHOEBE
Vou junto com você. Fiz uma música que vai deixar aquele cachorro caidinho por mim.

ROSS
Não precisa! Quer saber? Eu vou levar seus biscoitos.

Ross abraça um monte de pacotes de biscoitos e sai depressa.

INT. APARTAMENTO DE CHANDLER/MÔNICA – NOITE

CHANDLER chega no apartamento sentindo-se a pior pessoa do mundo. Ele se joga no sofá. De repente, ouve-se um som de pum perto do seu ouvido. Chandler salta do sofá assustado e vemos Mônica se divertindo com uma bexiga na mão.

CHANDLER
Não achei graça! Por pouco não perdi o emprego.

 MÔNICA
Você não fez o que falei, certo?

CHANDLER
Isto nem passou pela minha cabeça! De que lado você está?

MÔNICA
Da razão. Você ainda vai me dar.

CHANDLER
Nem morto! Eu quero justiça!

MÔNICA
Lembra a última vez que você reclamou no açougue do Carl?

CHANDLER
Eu fiquei com dó dele e acabei comprando cinco quilos de rosbife.

MÔNICA
Tudo porque ele pediu desculpas por vender um pacote de duzentos gramas de carne seca estragada.

CHANDLER
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não posso continuar sendo chamado de “Chandler Cheirosinho”.

Mônica disfarça e abraça Chandler com um prendedor de nariz.

MÔNICA
Até que enfim eles reconheceram o seu valor, meu amor!

INT. APARTAMENTO DE ROSS – DIA

ROSS está no seu apartamento rodeado de livros de adestramento de cães. Alguém bate à sua porta. Ele abre e PHOEBE está vestida como uma escoteira.

PHOEBE
O senhor não quer comprar uma caixa de biscoitos para ajudar as escoteiras?

De repente, um monte de cachorros, gatos e até um pombo invadem o apartamento de Ross.

ROSS
Que diabos é isto Phoebe? Eu tenho um encontro daqui a pouco!

PHOEBE
Eu pensei que era uma das suas desculpas.

ROSS
Não! Eu tenho mesmo um encontro e preciso dar um jeito naquele cachorro!

PHOEBE
O pai dela é muito bravo? Eu posso ensinar uns truques para lidar com aquele cão rabugento.

ROSS
Não, Phoebe! Ela realmente tem um cachorro que eu preciso dar um jeito.

Phoebe liga a televisão e está passando uma matéria sobre um hipnotizador de animais. Ele faz uma demonstração da sua técnica. Phoebe e os animais seguem os comandos do
hipnotizador. Ross acompanha tudo com atenção. Phoebe sai do transe.

PHOEBE
Que viagem! Sonhei que era a Lassie e você era o Gonzo.

ROSS
O que mais você se lembra quando foi hipnotizada?

PHOEBE
Eu não fui hipnotizada. Isso é besteira! Eu só vim aqui porque você pediu para trazer mais biscoitos.

ROSS
Eu não pedi…deixa pra lá. Você disse que ia passar na casa do Joey
também, lembra?

Phoebe aponta para a pomba.

PHOEBE
Bem que o Sculley me avisou.

Phoebe vai embora e deixa suas sacolas para trás. Ross está empolgado com a ideia de hipnotizar o cachorro. Ele pega um amuleto e imita o jeito do hipnotizador.

INT. APARTAMENTO DE JOEY/RACHEL – DIA

RACHEL volta da academia e bate a porta. JOEY está no quarto e acorda com o barulho. Ele tem preguiça de levantar. Joey sente uma coceira e acha gostoso. A coceira aumenta e deixa Joey irritado. Ele levanta o lençol, fica assustado e grita desesperado.

JOEY
Nãããoooo!!!

Rachel bate na porta do quarto de Joey.

RACHEL
(O.S)
Joey, está tudo bem?

Joey não responde. Rachel tenta abrir a porta. Joey não sabe se coça ou se responde Rachel.

RACHEL
(O.S.)
Joey, fala alguma coisa! Vou chamar a Mônica e Chandler para ajudar abrir essa porta!

JOEY
Não! Quer dizer está tudo bem. Eu tive um pesadelo e já vou sair.

RACHEL
(O.S.)
É isso mesmo!?

Joey, que não pára de se coçar, responde como se tivesse um orgasmo.

JOEY
(O.S.)
Ééééé…

Corta para Rachel na porta do quarto de Joey.

RACHEL
Eu já disse que essas conquistas de uma noite, não estão te fazendo bem.

Corta para Joey que sente que precisa ir ao banheiro.

JOEY
Estou parecendo o homem elefante. A Rachel não pode me ver assim.

Joey abre a porta e sair do quarto devagar enrolado num lençol. Ele é surpreendido por Rachel.

RACHEL
Por que você não disse que ia fazer a festa da toga? Vou chamar o pessoal.

JOEY
Não! Eu estava ensaiando para o meu novo papel. Toda mulher sonha em ter um amante romano.

Rachel entra na brincadeira e vai para cima de Joey, que é obrigado fugir. Rachel acha estranho a atitude de Joey.

RACHEL
Por que você está fugindo de mim?

A coceira aumenta e Joey tem dificuldade de responder.

JOEY
Estou me coçando por dentro para não responder a sua pergunta.

RACHEL
Acho que você está escondendo alguma coisa de mim.

JOEY
Eu!? Não…

Rachel parte para cima de Joey novamente. Os dois ficam como gato e rato. Rachel alcança Joey quando ele entra na cozinha e puxa seu lençol. O balcão não permite que se veja Joey nu. Rachel não acredita no que está vendo.

JOEY
O quê!? Ele está assim porque está frio!

RACHEL
Eu sabia que isto ia acontecer! Eu te disse!

JOEY
Isso aqui não é nada! Deve ser uma mordida de pulga.

Rachel se dá conta que Joey está nu e carro para o quarto arrastando o lençol. Joey não sabe o que fazer. Quando Rachel fecha a porta do quarto, Joey aproveita e abre a porta da geladeira. O frio alivia a coceira.

INT. EMPRESA DE CHANDLER/COPA – DIA

CHANDLER chega na copa e vários COLEGAS de trabalho estão lá de costas para ele. O COLEGA de trabalho, que o incriminou, se vira e está com um prendedor no nariz.

COLEGA DE TRABALHO
Chandler Cheirosinho chegou pessoal!

O restante dos colegas se viram e também estão com o prendedor no nariz. Antes que Chandler responda, seu CHEFE aparece.

CHEFE
Sabe o que não está cheirando nada bem? O nosso faturamento! Se continuar em queda terei que fazer alguns cortes.

O Chefe sai e o grupo vai atrás dele. Chandler fica na copa abatido com que acabou de ouvir.

INT. APARTAMENTO DE ROSS – NOITE

ROSS está atrasado para seu encontro. Na pressa, Ross pega as flores e o pacote de biscoito para cachorro. Ele deixa para trás a caixa de bombom.

INT. APARTAMENTO PAQUERA DE ROSS – NOITE.

ROSS toca a campainha e ouve os latidos do cachorro.

DONNA
(O.S.)
Quieto, Fred!

A porta abre e DONNA está de roupão e segura FRED no colo. Ross tenta cumprimentar sua paquera sem sucesso. Ele entra no apartamento. O sofá está rasgado e alguns móveis estão roídos também.

DONNA
São para mim?

ROSS
Claro! Espero que goste das flores e dos…biscoitos para este cãozinho tão simpático.

DONNA
Bombons seriam mais apropriados para um primeiro encontro.

Fica um clima de suspense no ar.

DONNA
Eu amo homens que seguem seus instintos e surpreendem as mulheres. Fred e eu adoramos seu presente.

Depois de fazer um carinho em seu cachorro, Donna o coloca no chão.

DONNA
Vou deixar os meninos um minuto a sós.

ROSS
Não demore, por favor!

Donna vai para o quarto e Ross tem que enfrentar a fera. O cachorro está pronto para atacar. Ross tira seu amuleto do bolso e tenta hipnotizar a fera.

ROSS
Olhe para este amuleto. Você sente seus olhos pesados. Você está cansado e quer dormir…

O cachorro parece obedecer Ross, mas em seguida volta a rosnar. Ross tenta hipnotizar mais uma vez.

ROSS
Dorme besta fera, que a bruxa vem pegar. Não estrague minha chance de ficar com sua dona, se não vou te matar.

O cachorro fica irritado  e corre atrás de Ross. Ross pula no balcão da cozinha e não sabe o que fazer.

DONNA
(O.S.)
Como estão os meus meninos?

ROSS
Muito bem! Estamos muitos bem!

DONNA
(O.S.)
Já estou saindo!

Ross tenta espantar o cachorro sem sucesso. Ele abre o pacote de biscoitos e joga um. O cachorro devora na hora. Ross joga uns quatro, um atrás do outro.

Donna sai do quarto e encontra Ross e o cachorro sentados no sofá. O cachorro coloca a cabeça no colo de Ross. Donna acha graça daquilo e beija Ross.

O casal vai para o quarto. Instantes depois Ross aparece e pega mais biscoitos. Ele deixe os biscoitos perto do cachorro que não dá a mínima para Ross.

INT. APARTAMENTO JOEY – DIA

Joey não sai da frente da geladeira. Rachel aparece e briga com Joey para fechar a geladeira e ela consegue.

RACHEL
Você precisa ir para o hospital, antes que isto piore.

JOEY
Isso aqui não é nada demais. Logo passa.

RACHEL
Quem tem que dizer isto é o médico.

JOEY
Eu sou médico, esqueceu?

RACHEL
Na ficção Joey. No mundo real, você não consegue diagnosticar nem uma unha encravada.

JOEY
Como não, me dê a sua mão.

Antes de Joey pegar a mão de Rachel, ele coça a virilha. Rachel tira a sua mão depressa e fica irritada.

RACHEL
Se você tivesse me ouvido, nada disso teria acontecido.

JOEY
Como eu ia saber? Isso nunca aconteceu comigo.

RACHEL
Não?

JOEY
Eu só peguei chato e gonorreia.

RACHEL
Isto são DST´s.

JOEY
Eu pensei que fosse por causa das pulgas. Preciso mandar dedetizar meu quarto.

RACHEL
Acho melhor irmos para o hospital, antes que o circo comece o espetáculo.

JOEY
Nem sabia que um circo estava em Manhattan?

Rachel apenas olha na direção do saco de Joey. Quando ele percebe que Rachel está olhando, Joey dá seu sorriso sacana. Logo muda sua expressão ao ver a sua situação.

JOEY
Me leva logo para o hospital!

RACHEL
Vou me trocar e já volto!

Rachel vai para seu quarto enquanto Joey se contorce por causa da coceira. Rachel volta linda.

JOEY
Por que você demorou tanto? Vai me levar para o hospital ou para jantar? Pensando bem…o hospital pode esperar.

Rachel entra na cozinha e pega uma faca. Joey sai depressa do apartamento e Rachel sai calmamente.

INT. APARTAMENTO CHANDLER/MÔNICA – NOITE

CHANDLER chega em casa desconsolado. De repente, as luzes se apagam, acendem luzes vermelhas e caem máscaras de oxigênio que nem de avião. MÔNICA se diverte com a sua surpresa.

MÔNICA
Bem-vindo ao lar meu cheiroso amorzinho!

CHANDLER
Você se diverte com a minha desgraça.

MÔNICA
É para isto que eu pago você.

CHANDLER
Engraçadinha! Até que isto é divertido! Como será que a Phoebe e o Joey iam reagir?

MÔNICA
Foram eles que deram a ideia de fazer isto.

CHANDLER
Os dois me pagam. Primeiro tenho que resolver a minha situação no trabalho.

MÔNICA
Acho que chegamos num ponto que não há nada que se discutir.

CHANDLER
Sempre há espaço para se discutir.

MÔNICA
Você quer ter razão ou dormir no sofá?

CHANDLER
Você tem razão, vou pedir desculpas. Mas, vai ser do meu jeito.

Mônica vai para o quarto pisando duro. Chandler percebe a burrada e vai logo atrás. A porta já está trancada.

EXT. RUA – DIA

JOEY e RACHEL estão na rua. Enquanto Rachel chama um táxi, Joey está agarrado a um poste, feito um Gogo Boy, por causa da coceira da DST. Os seus movimentos chamam a atenção de uma velhinha, que coloca um dólar na alça da sua toga.

Quando Rachel finalmente consegue um táxi, Joey está cercado por mulheres. Rachel tira Joey do meio das mulheres, que protestam.

CORTA PARA

INT. TÁXI – DIA

JOEY E RACHEL estão no táxi a caminho do hospital. Um celular toca e Rachel percebe que não é o seu, mas o de Joey e entrega para ele. É Estelle, a empresária de Joey.

INTERCUT

INT. ESCRITÓRIO DE ESTELLE – DIA

ESTELLE está com seu cigarro aceso, mas que é pura cinza.

ESTELLE
Joey, onde diabos você está?

JOEY
Estou indo para o hospital,
Estelle.

ESTELLE
Você está morrendo?

JOEY
Não!!!

ESTELLE
Então esqueça o hospital! Vá logo para o set de filmagem! O diretor do filme quer a sua cabeça!

JOEY
Estelle, eu não posso! Tenho que ir para o hospital!

ESTELLE
Se não estiver no set de filmagem logo, você estára literalmente morto! Entendeu?

Joey desliga o telefone e Rachel fica preocupada.

RACHEL
O que foi?

JOEY
Não vou para o hospital.

RACHEL
Você está louco?

JOEY
É um caso de vida ou morte. Motorista, nós vamos para Boulevard com a Rua Treze.

O motorista atende a ordem de Joey.

INT. APARTAMENTO CHANDLER/MÔNICA – DIA

CHANDLER teve uma péssima noite por ter dormido no sofá. MÔNICA acorda feliz da vida para provocar Chandler.

MÔNICA
Nada como uma boa noite de sono para colocar os pensamentos em ordem.

CHANDLER
Eu me rendo! Você tem razão!

MÔNICA
O que mais?

CHANDLER
Me desculpe!

Mônica consola Chandler.

MÔNICA
Agora eu vou preparar você.

Chandler olha assustado para Mônica, que parece possuída.

INT. ESCRITÓRIO DE CHANDLER – DIA

COLEGAS DE CHANDLER estão na copa batendo um animado papo. O colega que armou contra Chandler é o centro das atenções.

COLEGA DE TRABALHO
Ele achava que ia ficar com a promoção. Só que o chefe escolheu outro da equipe…

Os risos param com a chegada de CHANDLER. Ele está abatido e pálido. Os colegas não sabem se tem medo ou compaixão por ele. O único que não se abate é o seu algoz.

COLEGA DE TRABALHO
Como está o nosso cheirosinho hoje?

CHANDLER
Péssimo!

COLEGA DE TRABALHO
Isso quer dizer que precisamos evacuar o prédio?

Os colegas abrem espaço quando Chandler vai pegar um café.

CHANDLER
É que ontem eu fui ao médico…

COLEGA DE TRABALHO
Descobriu que é alérgico a repolho! Só o colega de trabalho ri da sua piada.

CHANDLER
Quem me dera se apenas fosse isto. O médico disse que o meu problema…

Os colegas de trabalho ficam emocionados com a história de Chandler.

COLEGA DE TRABALHO
Qual é! Vocês não estão acreditando na história dele, estão? Esse é o Chandler Cheirosinho!

CHANDLER
Eu queria pedir desculpas a vocês pelo meu comportamento esses dias.

Os colegas de trabalho passam a apoiar Joey.

COLEGA DE TRABALHO
Desculpas aceitas! Então, como eu estava contando…

Todas as atenções estão voltadas para Chandler.

CHANDLER
Eu me sinto tão culpado por toda essa situação.

O Colega de trabalho está prestes a explodir, quando o chefe entra na copa.

CHEFE
Você realmente passou dos limites! Como é que tem coragem de estar aqui?

Chandler realmente começa a passar mal.

CHANDLER
É que…

CHEFE
Por sua causa, nós perdemos um importante cliente!

Chandler precisa ser amparado pelos colegas.

CHEFE
O que mais me espanta é trabalhar com alguém tão sujo como você!

Chandler entra em desespero e fica de joelhos.

CHANDLER
Eu confesso! A ideia não foi minha!

CHEFE
Eu encontrei essa almofada na sala de reunião! Só você podia ter colocado ela lá!

O Chefe mostra a almofada que faz barulho de pum.

CHANDLER
Eu não…

O Chefe vai na direção de Chandler, que ainda está de joelhos. Por pouco Chandler não pega nas pernas do Chefe para suplicar perdão.

O Chefe passa direto e vai até o Colega de trabalho que armou para Chandler.

CHEFE
Você achou que escaparia dessa? Eu encontrei a caixa do seu brinquedinho na sua mesa.

COLEGA DE TRABALHO
É como dizem “Perco o emprego, mas não perco a piada!”.

CHEFE
Fora daqui!

O Colega de trabalho sai e o Chefe fica diante de Chandler, que ainda está de joelhos.

CHEFE
Que diabos você está fazendo aí?

CHANDLER
Perdi a minha lente de contato.

CHEFE
Encontre logo e vá para a minha sala. Seu projeto que ninguém sabe o que é foi aprovado e você foi promovido.

Todos acompanham o Chefe e deixam Chandler, que comemora sozinho.

INT. ESTÚDIO DE CINEMA – DIA

O cenário é de uma vila medieval e os FIGURANTES estão prontos para a batalha. JOEY aparece vestido com uma armadura de cavaleiro e está furioso porque não pode se coçar.

RACHEL está do lado do DIRETOR do filme que está impressionado com Joey.

DIRETOR
Dá para sentir daqui a sua fúria deste ator!

RACHEL
A arte imita a vida!

O Diretor toma o seu lugar e Rachel senta ao seu lado.

DIRETOR
Todos prontos? Ação!

Joey ataca todo mundo com uma fúria incontrolável. Ele acaba com seus inimigos. O Diretor dá a ordem para parar as filmagens e cumprimenta Joey.

DIRETOR
Corta! A sua atuação foi espetacular!

JOEY
Obrigado! Eu me preparei muito para este papel!

DIRETOR
Ótimo! Porque eu resolvi que o seu personagem terá mais espaço no filme. Vamos gravar suas cenas agora.

JOEY
É que eu preciso…

DIRETOR
Preparem o nosso astro para a cena de sexo com a princesa.

Uma bela FIGURANTE aparece com uma camisola branca. A coceira por causa da DST faz com que Joey pareça animado. Joey procura Rachel para pedir ajuda, mas o contra-regra leva o ator até o cenário com a figurante.

JOEY
Rachel!

RACHEL
Mostre para todo mundo o verdadeiro ator que você é!

A bela Figurante se aproxima de Joey. Ele se afasta da figurante. A Figurante insiste na investida e Joey tem dificuldade de fugir dela.

Finalmente a figurante consegue agarrar Joey, que por um instante esquece que está com DST. Joey se aproveita da figurante, que retribui.

A Figurante joga Joey na cama e pula em cima dele. Joey se controla ao máximo para não gritar de dor. A Figurante entende que Joey está gostando e começa a descer em direção à sua virilha.

Quando a figurante está na cintura de Joey, a parede do cenário cai em cima dos dois.

JOEY
(O.S.)
Rachel, acho que agora nós podemos ir para o hospital.

INT. APARTAMENTO DE ROSS – NOITE

ROSS conversa ao telefone como se estivesse falando com Phoebe.

ROSS
Não sei o que você colocou nestes biscoitos, Phoebe. Eles são mágicos!

Alguém toca a campainha e Ross vai atender. Ross abre a porta e dá de cara com DONNA e seu CACHORRO, que agora está muito gordo.

ROSS
Que surpresa!

Donna entra e logo em seguida DOIS POLICIAIS aparecem. Ross acha que é uma pegadinha e se oferece para ser algemado.

ROSS
Eu confesso!…

Um policial algema Ross antes que ele possa se explicar. Todos saem do apartamento.

ROSS
Vocês prendaram o cara errado. Eu sou apenas um paleontólogo.

INT. APARTAMENTO DE PHOEBE – NOITE

PHOEBE está fazendo seus biscoitos. Ela atende o telefone.

PHOEBE
Oi, tia Margareth! Se eu ainda estou com aquele pacote que deixou comigo?

Phoebe pega um pouco do que parece ser orégano, coloca nos seus biscoitos e leva ao forno.

PHOEBE
Eu usei quase tudo para fazer meus famosos biscoitos para cães.

Phoebe pega um biscoito que está no prato. Antes de dar uma mordida, Phoebe fala ao telefone.

PHOEBE
Aquilo não é óregano. Também não é para uso medicinal? A polícia não pode encontrar? Ok!

Phoebe desliga o telefone e faz uma ligação. Ela fica esperando, mas ninguém atende. Phoebe faz outra ligação.

PHOEBE
Mônica, você sabe do Ross? Estou tentando falar com ele. Ah, ele está preso? Manhattan aprisiona a gente mesmo.

Phoebe desliga o telefone depressa e vai ver a sua fornada de biscoitos. Ela sente o aroma feliz da vida.

PHOEBE
Pobre Ross! O trânsito em Manhattan prende a gente de um jeito. Nessas horas eu queria ser como você Sculley.

SCULLEY voa pela cozinha e desaparece num passe de mágica. Phoebe fica pensativa, pega um biscoito e dá uma mordida.

FIM

Frase – Quando faltam palavras

Bom dia com poesia! É difícil conseguir disfarçar quando se está feliz.

Quando faltam palavras.jpg

Poesia – Profeta

São muitos os caminhos que nos levam até Ele.

Chegará o dia

Que todos entenderão

Que sobre Deus

Homem algum

Tem autoridade

Aquele que diz

Que o seu Deus

É o salvador

Não pode fazer

Tal afirmação

Porque Deus

Não é uma propriedade

Tal pouco digno de posse

Aquele que o toma

Para si sem o conhecer de verdade

Comete crime contra a Humanidade

Criando guerras desnecessárias

Para provar a sua pequenez

Diante de quem realmente

Aprendeu os caminhos da fé

Com seu filho que veio até nós

Serenar nossos corações em conflito

Alecio Neto

Frase – Precisamos declarar a quem

Bom dia com poesia! Até os sentimentos têm prazo de validade. Diga o que sente o quanto antes.

Precisamos declarar a quem quer que seja.jpg

Poesia – Solto

Somos pura energia.

Como fios uns com os outros

Protegidos em algumas partes

Desencapados em outras

Cada um com a sua ponta

Chicoteando pelo ar

Sem saber de que lado ficar

Com medo de se conectar

E acabar levando

Um choque com a realidade

Que não foi aquela que imaginava

Uma voltagem alta de sentimentos

Tão intensos que faiscavam à noite

Se apagam com o tempo

Ainda há quem insista

Em enterrar sua ponta

Na solidão do que buscar

Outra com energia maior

Que faz a Terra se iluminar

Quem se poupa demais

Evitando as oscilações

Paga um preço alto demais

Por não experimentar

O que faz as luzes se acenderem

Em qualquer lugar

Alecio Neto

Frase – Perguntei ao meu espelho

Bom dia com poesia! É melhor se achar do que ser ignorado a vida toda.

Perguntei ao meu espelho.jpg

Crônicas – Livro Mea Culpa – Capítulo VII

As contradições de um ninguém . Por Alecio Neto.

“Decidi escrever sobre a vida e achei que não daria uma página. Já foram tantas preenchidas com lágrimas, risos e alegrias.”

Dentro de mim havia um poço. Todos os dias eu jogava moedas nele sonhando com uma vida perfeita. Eram tantos desejos, dos mais simples aos mais absurdos, que não havia como evitar que ele transbordasse.

Eu estava cansado de ficar ruminando e regurgitando a minha vida. Se eu precisava ainda colocar alguma coisa para fora não ia afetar ninguém.

Demorou um pouco para eu acostumar com a penumbra. Fechei e abri meus olhos muitas vezes para que pudesse viver ali. Eu sabia que só poderia sair dali quando encontrasse o caminho para que não caísse de novo no poço.

Sentado naquele chão duro, pela primeira vez, eu olhei para cima e vi a minha vida. Senti um aperto no coração e um nó na garganta. Eu estava tão por baixo e a minha vida lá em cima. Não adiantava eu esticar os braços e muitos menos querer escalar as paredes. Não estava preparado ainda para sair dali.

Mesmo se eu fosse resgatado. O ato heroico duraria pouco. Talvez em alguns anos eu voltasse a cair de novo.

A cada hora de solidão, eu achava o que estava de errado na minha vida. A culpa foi a primeira coisa que precisava tratar. Eu assumi a responsabilidade dos meus atos.

As minhas culpas viraram blocos sem vida. Eram tantos que não cabiam mais na minha pequena cela. Tive que parar de me culpar para não ser esmagado entre as grades.

Também não podia mais conviver com minhas inseguranças. Elas começaram a vazar pelas paredes. Eu não queria morrer afogado nelas.

O tempo que antes achava que tinha muito pouco, agora sobrava demais. A ansiedade soprava forte no meu rosto. A falta de novos ares quase me fez entrar em desespero. Uma mente vazia asfixia a alma.

Trancado a sete chaves, eu precisava encontrar forças para não sucumbir. Passei dias olhando para o teto que tanto me angustiava. Precisava matar os temores para impor respeito se quisesse sobreviver naquele inferno.

Foi o que fiz. Dei vários golpes mortais, sem chances de defesa. Não podia ter clemência. Era uma questão de vida ou morte. Uma escolha entre eu e o meu passado.

No dia seguinte não havia vestígios do corpo, muito menos choro de viúva. A vítima tinha partido sem deixar saudade.

A rotina na prisão se transformou em uma verdadeira caçada. A busca pela palavra perfeita. Passava meus dias escrevendo poemas. A grande maioria com rimas e estrofes sem lamentações.

A poesia foi tomando conta do meu espaço. Ele foi ficando cada vez maior. Eu não tinha com que me preocupar. Estava seguro do que queria da vida. Protegido por uma consciência maior.

A tragédia se transformou em comédia. O drama em conquista. A solidão em romance em cada linha preenchida. O mundo lá fora não me pertencia mais. Havia dentro de mim um eu autêntico.

Um camaleão tem uma excelente capacidade de se camuflar para se proteger. Deixei de usar as camuflagens aos olhos da sociedade. Versava apenas o que fazia real sentido. Nada de aparências, nada de mais do mesmo. Foi então que eu decidi que precisava ser fundador da minha nova vida.

A pedra angular era a escrita. Ela foi a minha única companheira em todos os momentos. Só ela tinha a chave para abrir minha nova vida.

As poucas pessoas que estavam ao meu redor sabiam algumas coisas do que eu estava fazendo, mas não sabiam em detalhes o que estava tramando. Não havia vilões ou nada que pudesse prejudicar alguém.

Meus planos eram fazer com que meus projetos saíssem do papel. Eu só queria aproveitar as oportunidades que surgissem e nada mais. Não queria dever favores. Muitos já tinham me ajudado demais.

Eu precisava dar valor ao meu trabalho. Sim eu era um escritor que estava cumprindo pena. Eu me forçava a um duro trabalho de quebrar pedras. Tirar o melhor dos meus sentimentos e traduzi-los em palavras.

Os cadernos foram ocupando seus espaços. Eram tratados como crianças e tinham mais conforto do que eu. Não os deixei dormir ao relento nos dias mais frios. Eles ficavam guardados embaixo do meu colchão. Ninguém se atreveu a mexer com eles.

Entre meus colegas de confinamento eu era considerado de alta periculosidade. Sabia como ninguém matar um homem com um lápis e papel. Tudo o que eles não queriam era ter suas vidas devassadas novamente. Formamos um pacto de silêncio e jurei não contar os mais podres segredos do poder.

As poesias já não preenchiam mais meus dias. Eu precisava de algo mais. Passei a escrever um livro sobre a saga de um deus vivendo entre os mortais. Minha mente afinada tratou de escrever a história em pouco mais de três meses.

Aí eu parti para uma nova jornada. Li o máximo que pude e escrevi várias sinopses para roteiros de cinema. Escrevi o primeiro roteiro de um filme contando a minha vida. Eu achei chato demais e abandonei.

Eu estava começando a ficar entediado e a rotina na prisão já não era tão boa. Não podia fazer nada para tentar reduzir a minha pena porque eu mal tinha cumprido um ano e meio.

A luta foi grande para não deixar o claustro acabar comigo. Passei a trabalhar na biblioteca e onde mais podia me sentir útil. Ao voltar para a cela eu sentia vontade de escrever, mas achava que era perda de tempo porque ninguém ia se interessar pelas minhas ideias.

De que adiantava estar livre das influências do mundo lá fora se ainda continuava prisioneiro do pessimismo?

Resolvi que era hora de me rebelar. Queimei tudo que encontrei pela frente. Minhas ilusões, incertezas. Fiz minha cabeça de refém. Passei dias negociando a minha libertação.

Fiz questão de que minhas exigências fossem todas escritas para não ficar o dito pelo não dito.

Só assim atentando contra a própria vida é que se tem ciência de quanto ela vale. A minha vida ia valer ouro quando eu saísse daquele lugar.

Liberto de vez eu consegui finalmente ver a luz. O prazer de viver tomou conta de mim. Contagiei meus colegas que deixaram seus cativeiros de culpa. Passaram a escrever suas memórias, seus poemas.

Fui um mestre em transforma a minha triste realidade interna em algo digno de se ver para quem estava de fora.

Até um sarau consegui organizar. Fui aplaudido de pé pela polícia e pelos bandidos, que não se furtaram de aprender a lidar melhor com suas consciências.

Nesse ambiente tão culturalmente criativo, eu montei meu primeiro projeto de série para TV. Um trabalho prazeroso, que consumiu um bom tempo. Eu fiquei muito grato de não saber se era segunda ou domingo.

Foi em um desses domingos típicos que a minha vida começou a dar um passo rumo a uma nova fase da minha vida.

Não tinha motivos para eu querer esconder ou apagar o passado. Se me perguntassem eu respondia, se não soubesse eu mantinha minha boca fechada. Cabia aquele que estava comigo querer ou não saber da minha vida.

Uma visita fez com que eu quisesse expor um pouco da minha vida. Uma equipe de uma TV a cabo conseguiu autorização para visitar o presídio. Eles estavam iniciando um trabalho de pesquisa para a produção de uma série de TV sobre os esquemas de corrupção.

Eu sabia que o meu caso não ia despertar interesse, mas queria ter a chance de mostrar que poderia trabalhar com eles como roteirista. Uma loucura. Para mim era a oportunidade que não podia perder.

Na primeira visita eu e mais um grupo fomos transferidos de ala. O motivo era deixar o pavilhão apenas com as estrelas para que pudessem contar a versão de suas histórias.

As estrelas, depois de serem caçadas e crucificadas pela opinião pública, não queriam mais saber de holofotes e interrogatórios. Em protesto, elas ficaram de costas na escuridão de suas celas.

Quando eu soube o que tinha acontecido achei que não teria outra chance de ter contato com a equipe de produção.

Eles tentaram novamente e a direção do presídio fez o mesmo esquema da primeira vez. Eu e um grupo de coadjuvantes fomos transferidos para outra ala. As estrelas continuaram com sua greve de silêncio.

Dessa vez, eu tinha certeza de que eles não voltariam a procurar os protagonistas do esquema de corrupção. Nem tudo é cem por cento. Sempre existe uma margem de erro.

A polícia federal tinha interesse que a série fosse produzida. Os responsáveis pela investigação queriam ter seus nomes ligados à maior operação contra corrupção do país.

Eles partiram para o plano B. Eu fui chamado e a direção do presídio fez uma proposta que não poderia recusar. Eles me colocariam frente a frente com a equipe de produção. O meu papel era dizer o que eles queriam ouvir.

Era a minha oportunidade. Eu não queria que fosse daquele jeito. Não havia outro modo e acabei aceitando.

Durante uma semana, eu passei estudando informações sigilosas que nem a imprensa e autoridades tiveram acesso. Para os produtores, eu deveria passar a imagem de um dos homens mais importantes do esquema.

Se eu tivesse êxito conseguiria liberdade condicional. Era mais uma motivação para cumprir bem o meu papel. Apesar de ser pequeno, eu podia causar uma boa impressão e ter destaque com o tempo. Eu fui condenado por lavar poucos milhões, mas sabia informações que valiam muito mais.

O meu sócio, para quem lavei seu dinheiro sujo, tinha contatos poderosos em diversos partidos. Eu ouvi muitos relatos dos esquemas de corrupção do Governo.

Eu me dediquei de corpo e alma para este papel. Criei um personagem. Um sujeito arrogante e desconfiado, que estava naquele encontro porque fui forçado a fazer. Eu já tinha tudo planejado. Falaria o mínimo possível para que eles ficassem curiosos e, assim, eu pudesse revelar as informações aos poucos.

O grande dia chegou. Abriram-se as cortinas e meu personagem caiu por terra.  As razões para o fato foram muitas. A maior delas foi a escolha dos diretores do canal para me entrevistar. Eles achavam que apenas uma pessoa deveria conversar comigo. Justamente ela.

Fiquei sem reação. Tentei voltar ao meu papel, mas já era tarde demais. A minha máscara feita de papel barato tinha caído. Não consegui deixar de ser eu mesmo. Estava entregue a própria sorte. Não podia perder aquela oportunidade.

Uma australiana com seus trinta anos bem completados. Como produtora executiva do canal de TV a cabo, ela tomou as rédeas da situação quando soube dos problemas para conseguir informações para a série de TV.

A penumbra e o cinza gasto das paredes eram o clima perfeito para dar adeus a qualquer esperança. Por outro lado, era a prova de fogo para quem sempre acreditou no melhor do ser humano. Eu precisava de redenção.

Ela se interessou por tudo que dizia ao meu respeito. Eu fiquei espantado com tamanha curiosidade. Perto dos poderosos que ali estavam comigo, eu era um ninguém. Minha vida não era interessante. Meus erros beiravam ao infantil.

Eu confesso, em juízo perfeito, que queria saber tudo dela. Uma mulher que eu sonhava ter ao meu lado e que não imaginava que ia encontrá-la ali.

Ela era como eu. Acreditava piamente nas pessoas. Com a diferença que não era tão ingênua. Sabia bem se defender. Seu jeito impunha respeito. Seus olhos azuis poucas vezes erraram ao ler uma alma. Eu estava ali pronto para ser lido.

Não sabia o que me despertava mais interesse: ela ou o que estava fazendo naquele presídio. Ambos os casos. Amor e trabalho eram o que o poeta enjaulado sempre quis da vida.

Aquele foi o nosso primeiro encontro. Quem poderia imaginar uma história assim? Para o segundo encontro, eu me preparei mais ainda o meu papel. Ajudei no que foi possível com todas as intenções do mundo. Mesmo as minhas segundas intenções eram muito boas.

Em cinco encontros, ela achou que tinha material suficiente para a sua equipe trabalhar. O meu trabalho tinha chegado ao fim para a minha tristeza. Por dois meses, eu não tive mais notícias dela.

Era muita pretensão achar que aquela mulher ia se interessar por um marginal. Voltei a minha realidade quadrada, de visão estreita entre os vãos das grades.

Coloquei no papel em tom de desabafo o que só as folhas ouvem sem recriminar. Como eu queria que tudo fosse diferente. Sem ilusões, apenas sonhos e uma vida para realizá-los sem muitos obstáculos.

Um dia fui chamado para conversar com o meu advogado. Ele tinha uma notícia que recebi sem esboçar qualquer reação. Em pouco tempo, eu sairia em liberdade condicional.

Só de saber que estaria de volta à sociedade eu sentia um misto de medo e desprezo. Não sabia mais que mundo eu fazia parte.

Antes que abrissem as grades, Deus ouviu minhas preces. Não queria sair para o mundo mais solitário que entrei naquele presídio.

Um dia antes eu recebo a sua visita. Ela estava acompanhada pelo produtor da série. Eles queriam a minha ajuda. Na hora me coloquei à disposição para dar mais informações.

Eles queriam mais do que ouvir o que eu sabia sobre o esquema de corrupção. Eu fui convidado a trabalhar como roteirista da série.

Deixei os muros para trás com um sentimento de gratidão. Ali naquele retiro eu consegui não sei bem como colocar minha vida em ordem. Talvez dentro de mim eu soubesse, mas nunca foi fã de análise.

Mesmo com o mundo dando voltas, eu segui em linha reta a partir daquele dia livre.

Eu passei a ver a minha futura esposa com mais frequência. Eu sempre dava um jeito de cruzar com ela. No começo eram cumprimentos, depois algumas conversas.

Nós nos tornamos amigos. Eu sabia como era difícil viver sozinho. Para ela era ainda pior por causa da língua estranha, das falsas intenções e dos perigos de não conhecer direito a cidade. Eu não sabia mais se era amigo ou irmão mais velho.

Três meses depois eu já tinha tirado todas as dúvidas. Ela estava apaixonada por mim e eu por ela. Começamos a namorar e o relacionamento era de muita cumplicidade.

Para não prejudicá-la, nós mantivemos em segredo enquanto trabalhava no projeto da série do canal. Foi um trabalho incrível com uma produção de primeira linha.

O melhor era que eu estava em ótima companhia. Acompanhar de perto as filmagens foi uma grande escola para mim. Aprendi como era o trabalho da produção e da direção. Um dia eu iria produzir um filme e precisava saber ao máximo como fazer da melhor forma.

Recebi outro convite do canal de TV a cabo para outro projeto. Dessa vez, eles queriam que eu escrevesse um filme. Eu aceitei com um grande prazer. Durante oito semanas, eu trabalhei escrevendo o roteiro.

Depois de tudo aprovado, o canal pediu que eu acompanhasse a produção nos Estados Unidos. Dessa vez, eu fiquei separado da minha amada por quase dois meses. Eu não tinha como agradecer por ela ter me ajudado a aprimorar o meu inglês.

A produção daquele filme abriu outras portas para mim. Conheci alguns produtores que trabalhavam com os maiores estúdios de cinema. Mais uma vez, eu estava no lugar certo e na hora certa. Um dos produtores estava com dificuldade em terminar um roteiro de um filme romântico e pediu a minha ajuda.

Quando li o roteiro original, eu achei a história muito ruim. Eu não estava ali para criticar e fiz o meu trabalho. Só que eu criei outro argumento e escrevi algumas páginas do meu roteiro.

O produtor gostou tanto da minha ideia, que adiou as filmagens e esperou meu roteiro ficar pronto. Como não queria decepcionar ninguém, eu trabalhei até altas horas da noite para entregar meu filme.

Um ano depois, meu primeiro filme estrelava nos cinemas dos Estados Unidos. Foram poucas salas, mas a crítica adorou o filme. Meu nome começou a circular entre os produtores. Mais uma porta estava aberta e trabalho não ia faltar para mim.

Eu estava com quarenta e três anos e parecia que eu tinha pouco mais de trinta. Era assim que eu me sentia. Parte desse comportamento era com certeza por causa da minha namorada.

Eu me sentia um garotão em certos momentos e ela sentia-se o oposto. Com tudo que estava acontecendo, ela é que passou a administrar o meu trabalho como a minha agente.

Eu não queria apenas ela como a minha namorada e uma sócia informal. Eu a queria como minha esposa e não sabia se ela queria o mesmo.

Em certo momento, eu tive medo de perdê-la por causa do acúmulo de trabalho e os desencontros que isto causava. Pensei em diminuir meu ritmo, mas ela não deixou. Eu tinha realmente encontrado a mulher que queria para estar do meu lado em todos os momentos.

O nosso relacionamento passou para o próximo passo sem surpresas. Na verdade, eu fiquei surpreso porque ela decidiu que era hora de casarmos. Quem acabou dizendo sim fui eu e não ela. Minha amada queria casar na igreja e na sua terra natal. Eu concordei e levei minha família para o casamento na Austrália.

Passamos a lua de mel numa praia paradisíaca e voltamos para o Brasil. Mal entrei na nossa casa, eu fiquei sabendo que a minha esposa estava grávida. Não cabia de tanta alegria. Fiquei ainda mais feliz quando soube que era um casal de gêmeos.

Eu tinha uma família para cuidar e tomei uma decisão importante. Meus filhos nasceriam na Austrália. Minha mulher foi contra a minha ideia. Ela queria dar à luz no Brasil.

Bati o pé e disse que achava melhor eles serem cidadãos australianos e depois poderiam ter a cidadania brasileira. Só posso dizer que foi muito duro conseguir convencer a minha esposa.

Dois meses antes dos nossos filhos nascerem, eu levei a minha esposa para Austrália. Sem ela saber, eu pedi ao meu sogro que comprasse uma casa. Eu mantive o imóvel em segredo porque não queria que ela soubesse as minhas intenções.

As crianças mais lindas deste mundo chegaram pouco depois do ano novo. A casa dos meus sogros se encheu de festa. A sensação era indescritível. Eu parecia ser o dono do mundo.

Senti tristeza por não ter meus pais por perto naquele momento. Em pouco tempo, a minha família conheceria os netos e os sobrinhos. Se dependesse de mim, voltar ao Brasil era apenas a passeio.

Quinze dias depois após o parto, eu levei a minha esposa para conhecer a sua nova casa. Ela nasceu e cresceu em Brisbane e a cidade tinha tudo o que eu queria para minha família. Sem contar com as belas paisagens e muita água salgada. Para mim era o paraíso na Terra para viver até o fim dos meus dias.

A minha adaptação foi fácil. Parecia que eu já vivia naquela cidade, naquele país. Mesmo distante da minha família, eles continuavam presentes na minha vida. Periodicamente eu tinha que ir ao Brasil para resolver assuntos de trabalho.

A minha empresa de comunicação, que por anos ficou apenas no papel, cresceu muito com os trabalhos na televisão e no cinema.

Desde o início, eu queria que a empresa fosse um lugar onde as pessoas tinham prazer de trabalhar ali. Realmente nós conseguimos criar um ambiente criativo e divertido. O caminho para o sucesso e o crescimento não foi tão doloroso como o da minha outra empresa.

Depois de tanto sofrimento, eu entendi a importância de querer trabalhar por um projeto. Principalmente nos momentos mais chatos e difíceis. Eu aprendi a não desistir, a trabalhar com disciplina e fazer por merecer. Mesmo que não ganhasse um tostão por todo o trabalho. Com a poesia foi assim e foi ela que permitiu que eu fizesse tudo o que queria.

Poesia e música caminharam juntas na minha vida. Eu passei a escrever letras de música a convite do pessoal que tocava no estúdio que mandei construir na minha empresa.

Depois de alguns meses, uma das minhas letras que eu compus começou a fazer sucesso.

Eu fui recebendo convite de cantores para escrever letras para suas músicas. Pelas minhas contas, eu tive pelo menos cem músicas entre as mais tocadas nas rádios..

Para realizar tantos sonhos era necessário um espaço que coubessem todos. Comprei um terreno a quarenta minutos de São Paulo para construir a sede da minha empresa de comunicação. O lugar não deixava de ter um ar poético, mas não era afastado da civilização.

O espaço foi sendo invadido por redatores, escritores, músicos, arquitetos frustrados, designers e todo tipo de gente que queria extravasar sua criatividade.

Aquele lugar era uma fábrica de sonhos. Todo dia quando entrava naquele lugar havia uma novidade. Nós tínhamos uma equipe bem estruturada para fazer a produção do que imaginássemos.

Depois de tantos anos distante da publicidade, eu tive uma ideia que rendeu bons frutos para a empresa e alguns clientes. Criamos uma série para ser exibida apenas na internet. Todos os custos de produção foram pagos com merchandising de produtos. Além disso, a minha empresa ficou com os ganhos da monetização de cada episódio.

Esse caso de sucesso despertou o interesse de outros anunciantes. Eu não tive alternativa se não criar uma divisão de publicidade dentro da empresa.

Grandes marcas passaram a trabalhar conosco. Isto virou uma via de mão dupla. De um lado, eu tive a oportunidade de criar as minhas séries e filmes com a venda de espaço para merchandising aos meus clientes. Do outro lado, meus clientes tiveram um enorme ganho de imagem e de vendas de seus produtos e serviços.

Voltei as minhas origens de redator publicitário e passei a criar campanhas como tinha sonhado no começo da minha carreira. Com estes trabalhos, os prêmios que não conquistei pelas minhas escolhas do passado, eu recuperei todos que desejei por muito tempo.

Trabalhar com comunicação era realmente a minha vida. Ainda mais com as produções para televisão e cinema. O passo seguinte foram os prêmios recebidos dentro e fora do país.

Nós aproveitamos cada momento para consolidar a imagem da empresa. Eu sempre disse que podíamos ser famosos ou reconhecidos pelo que fizemos de bom ou de ruim, mas prestígio era algo que eu queria conquistar.

Nunca tive a pretensão de montar um estúdio de cinema, mas a minha empresa se tornou uma das maiores produtoras do mundo.

Para chegar a números tão grandiosos foram necessários bons anos de trabalho. Muito aprendizado neste tempo, onde não tive medo de abrir mão de algumas coisas, de fazer investimentos que não deram certo. O erro faz parte da vida.

Com cinquenta anos de idade, muitas pessoas começam a desacelerar. Eu era o oposto. A minha vida profissional era bem agitada. Eu estava no auge do meu trabalho e tinha conseguido formar uma boa fortuna.

Eu resolvi que era a hora de tirar meu ano sabático. Ao invés de ficar sentado na praia ou viajando pelo mundo com a esposa e as crianças, eu sentei na frente do meu computador e escrevi. Por mais idiota ou banal que fosse a minha atitude naquele momento, eu sabia que precisava fazer isto por causa dos sinais.

Eles eram os mesmo de quando eu estava falido e comecei a escrever poemas. Alguma coisa dizia que eu devia largar tudo e escrever um livro. Eu já tinha escrito quatro livros que foram sucesso de vendas.

Minha esposa achou um pouco estranha a minha decisão, mas depois concordou comigo.

O primeiro mês foi muito estressante porque eu ainda não tinha conseguido me desligar da minha vida agitada. Eu tinha inúmeras ideias para filmes, séries e campanhas publicitárias. Meu livro estava em branco ainda.

A minha criatividade estava à flor da pele. Não conseguia redigir uma linha no meu novo projeto. Eu achei que estava com algum tipo de bloqueio e resolvi ir num psicólogo.

Na terceira sessão, eu tive vontade de abandonar a terapia. O psicólogo recomendou que eu tirasse um ano de férias. Eu estava proibido de sentar na frente de um computador, pegar um caderno ou qualquer coisa que desse para escrever. Era fazer isto ou poderia ter um colapso por causa do estresse que estava passando.

Minha esposa sabia o que estava acontecendo comigo. Eu não conseguia disfarçar a minha frustração. Parecia que de uma hora para outra a minha vida tinha desacelerado bruscamente e o meu cérebro tinha sofrido um forte traumatismo.

Um dia eu saí com as crianças e fui à praia. O dia estava fantástico e as crianças conseguiram fazer com que eu relaxasse um pouco. Eu percebi que meus filhos estavam com cinco anos de idade. Pelas minhas contas metade desse tempo, eu passei fora de casa e perdi metade da vida deles.

Voltei para casa com uma crise de consciência, pensando o que estava fazendo da minha vida. Logo a crise passou quando contei o que estava acontecendo comigo com a minha esposa.

Levei uma baita bronca por ficar perdendo tempo com algo que não era para ser uma crise de consciência. Minha esposa disse que eu tinha feito tudo aquilo pela família e não tinha sido uma perda de tempo.

Mesmo com o puxão de orelhas, eu ainda me sentia confuso. Podia ser a crise da meia idade que estava me deixando daquele jeito. Eu precisava encontrar uma forma de tratar meu problema.

Eu decidi que ia deixar a ideia de escrever o livro um pouco de lado. O meu ano sabático era para eu colocar meus pensamentos no lugar.

Um ano passa muito rápido quando a gente tem muito que fazer. Quando não tem, o tempo se arrasta. Eu estava me sentindo como um móvel da casa que fica sem lugar para ficar. A minha esposa resolveu onde me colocar.

Em uma segunda-feira, ao descer para tomar café na cozinha havia só um bilhete na mesa dizendo “Café no jardim”. Fui para lá de pijama e com a cara amassada. Quando cheguei, eu vi uma um senhor franzino, baixinho e com um grande turbante na cabeça.

Ele sorriu pela minha cara de espanto e a minha esposa chegou depois como quem tinha aprontado alguma coisa.

Levei alguns minutos para entender o que estava acontecendo. Não sabia se era um sonho ou se estava participando de alguma pegadinha. Minha esposa pegou no meu braço e me levou até o senhor calmo e sereno.

Parecia que nada podia abalar aquele frágil homem. Ele esticou a sua mão e me cumprimentou com um aperto forte que parecia que eu tinha levado um choque.

Olhei para a minha esposa com aquele olhar de “você me deve uma explicação”. Ela deu um sorriso de canto de boca, que eu só via quando ela encontrava a solução de um problema.

Ela contou que conversou com uma de nossas vizinhas e que ela tinha feito um retiro espiritual na Índia.

Sem eu saber, a minha esposa mandou pesquisar a vida do meu mais novo hóspede e descobriu que ele era um dos mais requisitados gurus. Com um brilho nos olhos e a entonação de um gênio, a minha esposa disse “Se você não vai à Índia, a Índia vem até você!”.

Eu não estava contente com aquela surpresa da minha amada esposa. Tomei meu café praticamente em silêncio. Por mais que eu quisesse ser agradável com aquele convidado, eu não conseguia esconder meu desconforto.

Após o café, eu pedi licença e fui para o quarto. Minha esposa veio logo em seguida e estava sem graça. Eu sabia que o que ela estava fazendo era para o meu bem.

Só que era extravagante demais para mim. Ela podia ter falado para mim o que estava pensando. Eu queria saber o motivo para ela ter tomado tal atitude.

Eu estava com a cabeça muito quente para conversar com a minha esposa. Ela entrou no chuveiro comigo e não consegui ficar bravo com ela depois do primeiro beijo.

Depois do banho e de cabeça mais fria, ela me fez sentar na poltrona do quarto e contou a razão pela qual trouxe o guru. Minha esposa disse que estava ficando muito preocupada comigo. Chegou um momento que ela não sabia o que fazer e começou a ficar nervosa de ver eu ando de um lado para outro pela casa.

Quando ouviu a nossa vizinha falando sobre o retiro espiritual na Índia, minha esposa pensou em me mandar lá para ter um pouco de paz.

Eu fiquei chateado por achar que estava sendo um estorvo na vida da minha esposa e dos meus filhos. Eu falei para a minha esposa que ela devia ter sido sincera comigo e que não precisava ter trazido aquele homem até a nossa casa. Por mais que parecesse ser uma boa pessoa, ele era um estranho no meio de nós.

Minha esposa disse que eu estava exagerando. Meu ano estava sendo literalmente sabático. Eu ia passar um trimestre com um indiano estranho na minha casa.

Antes de descer para fazer as honras ao meu mais novo hóspede, a minha esposa ainda tinha mais algumas coisas para contar. Eu não queria mais saber de surpresas, mas esta eu também não podia imaginar.

Eu sempre admirei as histórias que lia sobre os homens que fizeram grandes fortunas, mas mantinham uma vida simples comparada ao que possuíam.

Alguns moravam na mesma casa desde que haviam casados, outros afortunados usavam de transporte público para o trabalho e a maioria viajava na classe executiva.

Surpresa! Eu era um feliz proprietário de um jato. Mais um presente da minha amada esposa. Até aquele momento, os meus maiores luxos eram ter uma bela casa no Brasil e outra na Austrália. Meus carros não eram os que jogadores e astros de cinema costumavam ter.

Eu aprendi que os homens tinham que prestar contas às suas esposas, mas o contrário não. A minha esposa tentou explicar porque ela resolveu comprar um jato.

A primeira razão foi a urgência de trazer o guru para a minha casa, a segunda foi que ela preferiu comprar um usado em bom estado para não gastar muito e a terceira foi um presente para mim.

Tudo o que tinha conquistado era devido a minha esposa. Dificilmente ela toma uma decisão por impulso, ao contrário de mim. Eu ainda achava a compra deste jato uma extravagância. Depois de passar por tantas dificuldades, eu me tornei uma pessoa muito controladora com o dinheiro.

Fora o assunto do jato, eu tinha agora um hóspede inusitado na minha casa. Não sabia nada a respeito do senhor que estava lá no meu jardim a minha espera. Minha esposa não deixou tocar no assunto de quanto teria que pagar pelos honorários do guru.

O sujeito franzino, de olhos negros e penetrantes, vestia um terno bem cuidado. Seus cabelos eram grisalhos e bem cuidados. Não parecia nada com as figuras dos gurus que tinha visto no cinema e na televisão.

Quando nós chegamos à mesa, ele se levantou e parecia que era o dono da casa. Ele fez sinal com a mão para que eu sentasse e a minha esposa nos deixou a sós.

Eu não queria que ela me deixasse sozinho com aquele senhor. Era muito estranho estar ali com ele. O clima era de constrangimento e curiosidade de ambas as partes. Ele quebrou o gelo e disse que já tinha lido alguns dos meus livros. O que ele mais gostava eram os livros de poesia.

Na sua interpretação, os meus poemas expressavam a angústia de querer encontrar resposta para tudo. Eu achei que aquela conversa era uma desculpa para ele fazer uma leitura da minha personalidade. Aquilo me deixou incomodado porque ele estava fazendo uma leitura correta.

Em contrapartida, eu não sabia nada a respeito daquele homem. Até aquele momento, eu tinha lido pouca coisa sobre a filosofia indiana e os trabalhos desenvolvidos sobre comportamento humano. Eu estava ficando irritado em não poder ter algo para rebater o guru.

Aquele senhor parecia que estava acostumado com tudo. A ter atenção de quem ele quisesse como também não ser bem recebido por alguém pego de surpresa como eu.

Percebi que eu estava agindo feito criança e que aquele senhor veio até mim com um propósito. Eu tinha que saber qual era. Pedi desculpas pelo meu modo como estava tratando a nossa primeira conversa. Ele sorriu e disse que entendia e sugeriu que fossemos caminhar.

Como muitos indianos que estudaram fora, o seu sotaque era britânico. No caminho, eu conheci um pouco da história daquele homem. Ele tinha completado setenta e sete anos a pouco mais de um mês. Ele era formado em Oxford, com cursos de especialização em Cambridge e Harvard.

Foi um grande empresário na Índia no setor de mineração e formou uma grande família, com nove filhos, vinte e dois netos e dois bisnetos. A sua maior perda foi a sua esposa há mais de seis anos.

Quando chegou a minha vez de falar sobre a minha vida, eu fui sincero e disse que tinha começado tarde demais. Contei o que tinha passado e como tinha chegado até ali.

Ele só disse “foi um belo caminho o seu”. A sua frase coincidiu quando chegamos à praia. O senhor franzino parecia uma criança. Largou seus chinelos na areia, me entregou seus óculos de sol e correu para o mar.

Eu nunca tinha visto alguém com aquela idade tão disposto. Eu fiquei sentado na areia vendo o guru se divertindo.

Alguns mergulhos depois, ele sentou do meu lado e estava todo sorridente. Eu me senti assim a primeira vez que entrei naquele mar.

O guru me encarou e perguntou se eu algum dia tinha aproveitado um momento na minha vida? Eu respondi em tom de dúvida que sim.

Pelo tom da minha voz dava para perceber nitidamente que não. Eu sempre ficava com peso na consciência quando fazia algo que queria. Sempre pensava que era um gesto egoísta. Eu resolvi mudar a minha resposta e disse que estava aproveitando muito pouco a minha vida.

Fazia muito tempo que eu não conversava com ninguém sobre como estava conduzindo a minha vida. Eu reconhecia que tinha mudado muito. Consegui fazer coisas que poucas pessoas conseguiram. Uma coisa eu não tinha mudado. Ainda era um ser humano com seus altos e baixos.

O meu ano sabático deveria ser para tirar umas férias da minha rotina e não arrumar mais trabalho. Se eu estava na crise da meia idade era porque precisava encontrar um propósito de vida para seguir dali em diante.

Ele sabia que eu estava sentindo uma espécie de vazio. Por mais que eu procurasse me ocupar e realizar novos projetos, algo ainda estava faltando em mim. Isto me deixou preocupado e apreensivo.

Antes que pudesse dizer algo tive que obedecer ao comando do senhor franzino, que mandou dar um mergulho no mar. A água gelada me fez pensar com mais clareza. Eu precisava de um guia para me ajudar a preencher o vazio que estava sentindo.

Voltamos para casa e a conversa foi mais tranquila. Nós falamos sobre música, literatura, filmes e séries. Literalmente a minha praia. Eu agora aceitava a ideia de ter um guru comigo.

No dia seguinte, eu tive que acordar às cinco e meia da manhã e foi difícil acompanhar o ritmo daquele senhor franzino. Andamos e conversamos por mais de uma hora e meia.

A parte da manhã foi dedicada à meditação. Durante trinta minutos, eu tentei esvaziar a minha mente.

Após a tentativa fracassada de meditação, eu tive que escolher um lugar para ir. Decidi ir para a praia. O guru pediu que eu levasse uma cadeira e um guarda-sol. Assim que abri a cadeira e o guarda-sol, o meu exercício foi sentar e contemplar a paisagem por uma hora.

Fiquei em completo silêncio olhando para o mar, as ondas quebrando, a espuma branca na areia, a correnteza puxando a água de volta, o vento soprando de leve, as aves voando, os surfistas esperando a onda certa, um casal de idade passeando calmamente, o céu azul, as nuvens brancas imóveis, eu impaciente, meu guru calmo como sempre, a umidade da areia embaixo dos meus pés, o cheiro do mar, o som estrondoso de algumas ondas, conversas ao fundo sem poder identificar quem estava conversando, meu coração batendo, minhas mãos sentindo o metal do apoio de mão da cadeira, minhas costas incomodadas com o tecido do encosto.

Todas essas sensações, impressões e observações eu tive em poucos minutos. Eu queria levantar e sair dali. Aquilo não estava me deixando relaxado e eu não conseguia contemplar mais nada.

O que eu não conseguia me conformar era ver o guru sentado na areia, com as pernas em posição de lótus e as costas eretas. Ele estava calmo e sereno. Dava para perceber que ele estava meditando.

Se ele podia se sentir confortável ali, eu tinha a obrigação de fazer o mesmo. Não podia desistir na primeira vez. Respirei fundo e tentei novamente contemplar aquele momento.

Eu fiz o exercício da respiração diafragmática, várias e várias vezes. Aquilo foi me deixando cada vez mais relaxado ao ponto de cochilar sem que eu percebesse. Por quase quarenta minutos eu apaguei literalmente.

Enquanto nós estávamos jantando, o guru propôs uma nova atividade para o dia seguinte. Eu tinha que planejar uma viagem rápida para desfrutar o meu presente. Até então, o primeiro a conhecer o meu jato foi o nosso hóspede. Se ele não tivesse proposto a viagem, eu não tinha dado conta de que tinha um jato à minha disposição.

Eu andava tão desligado que não tinha percebido como a minha esposa ficou chateada por causa da compra do jato. Eu tinha que agradecê-la de alguma forma. Normalmente são os homens que compram presentes caros à suas esposas. Resolvi que nós faríamos uma viagem pelo Oriente.

Sem que ela soubesse, eu combinei com o guru para ir à Índia. Ele se colocou à disposição para ser o nosso guia. No dia seguinte, eu entrei em contato com o hangar e pedi para providenciar o plano de voo. No fim de semana, nós partimos rumo à cidade de Nova Deli e de lá fomos para Jaipur, no deserto do Rajastão.

Tanto o cinema quanto a televisão consome muito o nosso tempo e mal conhecemos os lugares por onde estivemos.

Dessa vez era diferente. Nós estávamos ali a passeio. Éramos turistas em um país com uma cultura milenar, que rendeu famosas fábulas, as mais belas fantasias, lendas e romances.

Quando saímos do aeroporto, não sei se era por causa do misticismo ou dos deuses, eu senti uma energia diferente. Algo que a meu ver parecia como se me libertasse.

Um pensamento veio na minha mente como se fosse um raio “Deixe o inesperado fazer parte da sua vida”. Eu achei aquilo muito estranho, mas não podia achar tal coisa em um lugar onde caos e harmonia andam de mãos dadas.

A viagem de pouco mais de quatro horas entre Nova Deli e Jaipur foi com os olhos colados na janela. Eu estava muito feliz de poder estar desfrutando aquele momento.

Nem o choro das crianças por causa da viagem conseguiu tirar a minha alegria. Até esperar dezenas de vacas atravessarem a pista foi motivo para eu tirar umas fotos de recordação. A minha esposa se divertia de ver como eu estava encantado.

Quando entramos nos limites de Jaipur nós ficamos impressionados com as construções rosadas. Jaipur foi a capital das famílias reais e por onde eu olhava via suntuosidade e paisagens deslumbrantes. Quando chegamos à casa do nosso guru, eu fiquei impressionado com a beleza da arquitetura.

A sua família era uma das mais importantes da Índia e deixou como herança um palácio para aquele senhor franzino de gestos simples. Um trabalho minimalista do chão ao teto.

Uma riqueza de detalhes, de texturas e uso de materiais que fazem os olhos se perderem. Era assim que estavam os meus. Eu não sabia para onde olhar primeiro.

Além da visão, o olfato ficou aguçado com os cheiros que vinham do belo jardim e de dentro do imóvel. Um perfume adocicado vinha das flores. Eu pude notar o cheiro de canela e até de cravo dos incensos acesos em diversos ambientes.

As paredes decoradas eram um convite para tocar as formas. As formas geométricas cuidadosamente desenhadas e as figuras esculpidas nos mármores e paredes eram incríveis. Um paraíso para artistas e perfeccionistas, como eu.

Tudo grandioso e muito bem cuidado. Fiquei impressionado com a sala principal. O piso era de mármore branco com detalhes em azul e dourado. No centro havia uma pequena fonte iluminada por luz natural.

O nosso anfitrião mostrou mais alguns cômodos do seu palácio e fomos para o nosso quarto. Na verdade eram dois quartos interligados. Eles eram usados pelo casal quando tinham filhos pequenos, que era o nosso caso.

Passamos o dia conhecendo o lugar e correndo atrás das crianças que pareciam estar num parque de diversão. Nem nos demos conta de que o dia estava se despedindo. Depois do jantar, nós ficamos conversando numa das salas de estar. O guru aproveitou para contar um pouco sobre a sua família.

Aquele palácio tinha sido construído no século quatro depois de Cristo. Por gerações a sua família foi dona de diversas minas pela Índia. Agora estavam no ramo da mineração de bauxita, ferro e xisto.

Os seus filhos moravam nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Inglaterra e África do Sul. Ele não deixou de falar da sua esposa e de como ela cuidou da família até morrer. Nós percebemos como era difícil para o guru ficar sem a sua amada esposa.

Eu logo mudei de assunto e queria saber o que poderíamos fazer para aproveitar a nossa visita na Índia. O nosso anfitrião disse que nós tínhamos chegado em uma boa hora. Naquela época era fim de março e a cidade recebia a Holi, a festa da Primavera.

Era um evento tradicional com um desfile pelas ruas. Os homens desfilam com um turbante e as mulheres desfilam com sáris coloridos. Além disso, havia uma procissão de elefantes decorados. A Holi aconteceria em três dias e ficamos na expectativa para ver como era essa festa.

Mesmo de férias na Índia a minha rotina continuou a mesma com o meu guru. Acordava bem cedo, meditação, exercícios de respiração e contemplação. Fora isso, eu acompanhava meu mestre nas longas caminhadas.

Em uma delas, nós chegamos ao Forte Amber, onde estava o importante observatório astronômico. Ainda era muito cedo e fiquei observando pela calçada à construção. Fui tirado do meu transe pela pergunta do guru “Todo mundo fica fascinado com os mistérios do céu. Tem a famosa frase que diz que o céu é o limite. Você acha que já chegou ao seu limite?”.

Ninguém tinha feito aquela pergunta, inclusive eu. Podia querer mais da minha vida? Eu já tinha uma vida mais que confortável. A única resposta que eu pensei em dar ao guru foi “Não sei”. Ele deu um sorriso e disse que era normal eu ter dúvidas sobre isto. O guru recomendou que eu pensasse nesta questão numa hora mais apropriada.

Voltamos para o seu palácio, mas eu não conseguia parar de pensar sobre a questão do meu limite. Logo a minha atenção foi desviada para uma manada de elefantes andando lentamente em nossa direção.

O guru vendo o meu espanto disse que eu não precisava ficar preocupado. Eles eram domesticados e os guias estavam levando os animais para serem decorados para a Holi, que aconteceria mais tarde.

Os elefantes passaram por nós calmamente e a calçada parecia estreita demais para mim. O guru ria da minha apreensão e continuamos caminhando até passar a grande fila cinza.

Cheguei ao palácio sentindo cansado e querendo dormir um pouco. Não sei se isto foi por causa do primeiro contato com os elefantes. Descansei por volta de uma hora. Quando abri meus olhos eu vi, de costas para mim, uma mulher com um belo sári todo florido.

Como ainda estava sonolento não reconheci a minha esposa. Ela estava muito bonita e uma empregada decorou suas mãos com hena. Meus filhos também estavam vestidos de acordo para o evento.

Minha filha vestia também um sári florido, com as mãos decoradas com hena e meu filho vestia uma roupa típica indiana e um turbante. Faltava apenas eu me preparar para o evento.

Com todos devidamente vestidos fomos para a rua acompanhar o desfile. Muitas flores espalhadas pelo chão, perfumes de todos os tipos. Alegria e fé misturadas na multidão. Os elefantes decorados eram uma atração à parte.

Caminhando entre as pessoas, eu percebi como era importante a tradição passada de geração a geração. Mais do que isso, eu tinha a sensação de participar de um evento religioso, de fé, de esperança em bons tempos pela frente. A energia presente ali era muito boa. Eu me sentia leve e sem preocupações.

Eu fiquei também impressionado como as pessoas nos trataram bem durante a Holi. Nós éramos estrangeiros fantasiados num evento tradicional.

Com aquele turbante na cabeça e andando pela rua, eu me senti como o grande ator Peter Sellers no filme Um Convidado Bem Trapalhão. Eu me distraí com a minha filha e não reparei o que estava bem na minha frente. Quando a minha esposa gritou, eu olhei para frente e dei de cara com o traseiro de um elefante, que nem se incomodou com o meu encontrão.

Todos que estavam a minha volta começaram a rir. Com o encontrão, o meu turbante entrou na minha cabeça. Eu parecia um cotonete parado no meio do desfile. Quando consegui tirar o turbante, eu levei um susto na hora que vi o traseiro do elefante bem na minha frente.

A minha esposa, que chorou de tanto rir, veio na minha direção me socorrer. Ela não perdeu a oportunidade de me chamar de “Peter Sellers” várias vezes.

O inesperado estava fazendo parte da minha vida naquele momento na Índia. Eu estava feliz de ver a minha esposa sorrindo, como fazia tempo que não via e meus filhos encantados com tantas novidades que só viram algumas vezes na televisão e no zoológico.  Foi difícil eu conseguir convencer meu filho que era perigoso querer subir no elefante.

O guru conseguiu dar um jeito de realizar o sonho do meu filho. Ele encontrou um filhote de elefante e meu filho andou alguns metros. O suficiente para eu filmar e tirar muitas fotos.

A minha pequena princesa chamou a atenção dos meninos que entregavam flores a ela. Um menino que devia ter pouco mais de quatro anos disse ao guru que não tinha visto alguém tão bela e que queria casar com a minha filha. Nós achamos graça do jeito daquele menino.

As recordações por ter participado daquela tradicional festa da Primavera, ainda estão gravadas na minha memória. Em poucos lugares no mundo eu realmente me senti tão bem.

O guru queria nos levar a outros lugares pela Índia. Nós conhecemos diversos templos, parques e monumentos. A espiritualidade esta por toda parte. A busca pelo verdadeiro “Eu” está dentro de cada indiano.

Fiquei fascinado como eles mantinham suas raízes preservadas. Por todas as cidades que passamos o antigo e o novo tinham que aprender a conviver. Era um bom exemplo para mim. Eu tinha que aprender a conviver com o meu passado sem deixar de viver meu presente.

Visitamos um dos cartões postais da Índia, o Taj Mahal. O monumento do amor. Ele foi tão bem construído que a gente esquece que está dentro de um enorme túmulo. Ali a morte é apenas um objeto de decoração deixado em algum canto. O que se via por toda era a prova de amor de um imperador por sua esposa.

Estar no Taj Mahal foi um sinal de que eu não deveria perder um minuto se quer com dúvidas na minha vida. Eu tinha que fazer o máximo possível para ser feliz e fazer a minha família feliz.

Minha esposa, meus filhos, meus pais, meus irmãos, minha família e amigos mereciam ser homenageados em vida. Um monumento por mais belo que seja não serve para aqueles que partiram.

Eu fui até a joalheria do hotel e comprei um belo anel de diamantes. Depois do jantar levei a minha esposa em frente ao Taj Mahal, que serviu de cenário para eu renovar meus votos de amor e fidelidade à mulher que me ajudou a construir uma bela família e uma carreira de muito sucesso.

Mais uma vez, o inesperado aconteceu nosso encontro romântico. Com a lua cheia o Taj Mahal parecia que tinha sido pintado com uma tinta branca fluorescente. Ele estava luminoso e mais bonito ainda. Combinava bem com os grandes olhos azuis da minha esposa.

Aquela noite ainda reservava mais uma surpresa, que nós saberíamos meses depois numa consulta de rotina.

Nós continuamos a nossa viagem pela Índia. Dessa vez, o destino foi conhecer a cidade natal de Mahatma Gandhi.

O objetivo do guru era mostrar para mim, o ponto de origem do homem que enfrentou o mundo e quebrou conceitos. O lugar era muito pacto, como qualquer cidade pequena ao redor do mundo. A sua arquitetura era muito simples e suas ruas muito apertadas.

Passamos apenas uma noite naquele lugar. Logo às cinco e meia eu estava de pé esperando pelo meu companheiro de caminhada. Foi um desafio vencer o piso de pedra todo irregular, que estava molhado com o sereno da noite. Sem contar a topografia da cidade com seus altos e baixos.

Era difícil conseguir ter fôlego para falar enquanto caminhávamos. O pouco que conversamos sobre a questão da luta que enfrentamos em nossas vidas. Para o guru, o mais difícil era lutar contra nós mesmos da mesma forma que Gandhi enfrentou seus inimigos: sem violência.

Eu já tinha enfrentado muitas lutas comigo mesmo sempre de forma violenta. Foram poucos momentos de lucidez de na minha vida.

O dia em Porbandar foi bem interessante para mim. Nós precisávamos sair logo daquele lugar para não matar a minha esposa e meus filhos de tédio. Voltamos para Jaipur e aproveitamos mais uns dias na casa do nosso anfitrião. O melhor da viagem foi ver a felicidade no rosto da minha família.

Seis meses havia passado desde que eu tirei meu ano sabático. Nesse período, eu aprendi que precisava ter um tempo para mim. A viagem à Índia foi o melhor exemplo.

Eu não precisava me afastar da família ou ter um comportamento isolacionista. Eu precisava reservar um horário para que eu pudesse exercitar a minha mente na prática da paz.

Duas vezes por semana eu conversava com o meu mentor durante uma hora aproximadamente. Eu falava sobre o meu progresso e como estava na minha busca para encontrar as minhas dúvidas. Do lado dele não havia críticas, apenas conselhos. Nas primeiras sessões ele sempre terminava dizendo para eu ter paciência que as respostas viriam com o tempo.

A primeira dúvida que eu tive trabalho para responder era uma pergunta que o guru fez quando estávamos caminhando em Jaipur. Ele lembrou famosa frase “O céu é o limite” e queria saber se eu tinha chegado ao meu limite. Durante uns dias, eu pensei sobre isto nos meus momentos de reflexão. As primeiras respostas que vinham à mente eram que não.

Sem brigas internas e sem culpas, eu cheguei à conclusão que queria mais. Eu queria que a minha empresa de comunicação aumentasse a sua participação e crescesse no mercado de entretenimento. Eu também queria produzir mais. Voltar a escrever e dirigir.

Podia ir além e criar um fundo de investimentos. Eu queria investir em novas tecnologias, ser um empreendedor com a função de gerar renda e empregos. Criar oportunidades para as pessoas se desenvolverem.

Faltava um mês para acabar o meu ano sabático e ele terminava justamente nas festas de fim de ano. A minha esposa decidiu que nós iríamos passar no Brasil. Eu achei a decisão estranha, mas ela justificou dizendo que eu precisava voltar ao meu ponto de partida.

Por mais que eu quisesse passar as festas de fim de ano com meus pais, minha esposa estava no oitavo mês de gravidez. Eu não queria arriscar e ter problemas, mas a minha esposa garantiu que estava bem e que tínhamos que viajar. O máximo que podia acontecer era dar à luz no Brasil.

As duas vezes que eu trouxe a minha família ao Brasil, meus filhos tinham apenas dois anos de idade. Dessa vez, as crianças já estavam com seis anos de idade. Elas adoraram passar as festas de fim de ano com meus pais, meus irmãos e a minha sobrinha.

Todo mundo recebeu um presente antecipado de natal. Uma semana antes do natal nasceu o nosso filho caçula. Dessa vez, meus pais puderam acompanhar a chegada do seu mais novo neto.

Foi bom eu passar um tempo com a minha família nesta época do ano. Nós tínhamos muito que comemorar. Um novo filho acabara de chegar, os negócios iam bem e eu tive um ano de muito aprendizado.

Assim que começou o novo ano eu retomei meu trabalho. Ficar um ano fora, apenas sabendo o que estava acontecendo à distância, é muito tempo e tive que me acostumar a ser um intruso na empresa.

Eu não comandava mais nada e as operações seguiam de acordo com os diretores que passaram a administrar a empresa. Passei mais de quinze dias apenas observando e me inteirando do dia a dia da empresa.

Aos poucos, eu fui retomando o ritmo de trabalho. Tinha muito que fazer já que tinha um grande plano para tocar pela frente. A minha empresa no Brasil estava começando dar sinais de que precisava se reinventar.

A criatividade e a busca por desafios tinham dado lugar a uma rotina de fazer mais do mesmo. Muitos da minha equipe estavam acomodados e não estavam mais acostumados a assumir riscos.

O ano anterior, a empresa não conquistou prêmios e muito menos indicações pelas nossas produções. Eu resolvi fazer um intercâmbio com os escritórios da Austrália e Estados Unidos.

Com a troca de profissionais, a sede ganhou novo fôlego. Logo eu comecei a perceber uma mudança de comportamento pelos corredores. Como em toda empresa, uma parte dos funcionários não se adaptou as mudanças e fizemos uma renovação do pessoal.

O clima de romantismo que eu sempre preguei pela busca por um ideal de vida precisava ser despertado em todos que trabalhavam ali.

Frase – Pensamentos e atitudes positivas

Bom dia com poesia! Somos aquilo que atraímos.

Pensamento e atitudes positivas.jpg

Poesia – Vítima

O maior crime é deixar de expressar ideias e sentimentos.

A maior é o meu pobre teclado

Bato nele sem piedade

Digo poucas e boas

Uso de ironia às vezes

Tiro sarro outras tantas vezes

Falo desaforos só para ele

Me arrependo e apago

O que queria tanto dizer

Confesso segredos

Ele discreto como sempre

Se mantém calado

Como as letras na pressa

Só me dou conta depois

Dou risada olhando para ele

Conto piadas que nem ele entende

Escrevo versos absurdos

Gosto de ouvir seu barulho

Sinto pena de ver

O quanto se desgastou comigo

Algumas letras nem traço existe mais

Da primeira letra do alfabeto

Meus dedos sabem de cor

O seu lugar de destaque

A mesma que escreve AMOR

Em todos os sentidos

Que se possa imaginar

Meu teclado ainda continua

Escrevendo letra por letra

Sem se queixar da minha mão

Pesada e violenta diariamente

Que bate sem dó versos

Frases, textos desconexos

Ele é um dos poucos

Que conhece a minha realidade

Melhor até do que eu

Alecio Neto